Nas últimas décadas, grandes estúdios de animação como a Dreamworks e a Pixar se especializaram em tratar a imagem animada com o máximo de realismo possível. Os cabelos do príncipe deShrek balançavam ao vento como cabelos de verdade; os cachorros, robôs e brinquedos da Pixar eram mais complexos do que muitos personagens de carne e osso. Agora, a Disney começa a efetuar o movimento contrário: levar o estilo mágico da animação à filmagem com atores.
O filme de Kenneth Branagh é uma ótima surpresa. Por não apresentar nenhuma mudança fundamental em relação à trama conhecida, esperava-se apenas um filme-cópia, algo incapaz de conquistar os fãs satisfeitos com a animação original. Mas Cinderela funciona como uma homenagem à animação original, cujo estilo e humor fantásticos impregnam esta história em live action.
Dessa vez, nada de efeitos especiais ostensivos, como ocorria com as fadas estranhas de Malévola, ou os coadjuvantes bizarros de Alice no País das Maravilhas. A matriz de Cinderela é essencialmente dramática, e é saudável ver um filme para crianças com ritmo calmo, linear como o filme original, criando diversas cenas sem recorrer à tela verde. Os momentos de efeitos especiais – principalmente a transformação da abóbora em carruagem e o retorno à vida comum pós-baile – são espetaculares justamente por surgirem após longos momentos de filmagem tradicional. Brannagh sabe dosar muito bem a fantasia teatral com a fantasia computadorizada.
Mas Cinderela mantém a visão romântica do mundo, como nos filmes de antigamente. Com poucas cenas de ação, ritmo enxuto e humor comedido, esta não é uma obra feita para a juventude tecnológica. Talvez por isso mesmo consiga ser atemporal, universal – não é à toa que o público adulto do festival de Berlim aplaudiu com tanto entusiasmo o novo filme da Disney. Embora não seja inovador – e nem tenha essa pretensão, diga-se de passagem – Cinderela comprova que uma história simples pode funcionar sem pirotecnia, apostando apenas na nostalgia relacionada ao tom e à trama de uma animação clássica.
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