Para quem não assistiu a Divergente (2014), esta sequência se inicia de modo didático e veloz, explicando que estamos em um cenário futurista, dividido em facções. Se você se enquadra em mais de um grupo, é considerado um divergente, e precisa ser eliminado por representar um perigo ao sistema. Ponto. O começo pode ser explicativo, mas tem o mérito de deixar para trás a longa contextualização do filme original, a fim de partir para algo mais importante: o combate de Tris (Shailene Woodley), símbolo da revolução, contra Jeanine (Kate Winslet), símbolo da tradição. Há menos personagens coadjuvantes, menos subtramas: o roteiro pressupõe que você já conhece o essencial, o que é uma vantagem desta segunda história.
Shailene Woodley continua sendo a principal responsável por tornar esta história verossímil e empolgante. A jovem atriz constrói uma evolução notável da personagem, transitando gradualmente entre a indignação e a ação, o amor e o ódio. Sem a sutileza de suas expressões, cenas como a de Tris enfrentando a si mesma poderiam parecer um tanto cômicas.Ansel Elgort e Miles Teller ganham contornos ambíguos, mais interessantes do que no filme anterior, mas a justificativa para suas mudanças de atitude é simples e rápida demais, comprometendo a coerência de seus personagens. Theo James, mais uma vez, constitui o elo fraco em meio ao bom elenco. Pelo menos o seu personagem torna-se mero ajudante da protagonista feminina, revertendo a lógica machista predominante nos filmes de ação.
O que realmente prejudica A Série Divergente: Insurgente, no entanto, são os diálogos sofríveis e as passagens rápidas do roteiro. Os personagens comunicam-se apenas em falas úteis, explicativas: eles dizem uns aos outros o que fazer (“Corra”, “Fuja”, “Prove-me”), mas quase nunca expressam sentimentos ou reflexões, ficando presos à lógica funcional e linear dos filmes de ação. Não há momentos de respiro, cenas de reflexão nesta obra sisuda demais, desprovida de senso de humor. Por ser o segundo filme de uma franquia, que já não precisava mais estabelecer o seu universo, é uma pena que o roteiro não tente aprofundar a psicologia dos personagens para além dos traumas maternos de Tris e Quatro.
Pelo menos, A Série Divergente: Insurgente mantém a opção de privilegiar as mulheres em posições de comando. Tris não é recatada e passiva, como certas heroínas apaixonadas de outras adaptações de livros adolescentes. Ela toma a iniciativa, atirando, pulando, saltando, tendo desejo sexual e um furor guerreiro que vai além do simples ímpeto de fazer justiça. O roteiro também inclui, mesmo que rapidamente, uma discussão sobre o modo como minorias sociais são tratadas em sociedades pouco democráticas, sendo levadas a se sentir culpadas dos males sociais. Não se pode esquecer que o divergente é uma metáfora do cidadão diferente e minoritário (gordo, gay, negro, deficiente, esquisito, como preferir), transformado aqui em super-herói essencial para a manutenção do equilíbrio social.
(Atenção: possíveis spoilers abaixo!)
A conclusão, aliás, reforça em nível quase infantil a metáfora da inclusão de minorias. O desfecho deixa uma impressão meio amarga: apesar de concluir de maneira satisfatória a estrutura do filme - algo que nem todo segundo filme de franquia consegue realizar -, ele o faz de maneira abrupta e simplista, aplicando o deus ex machina por excelência: um novo personagem simplesmente aparece com uma mensagem edificante, ordenando que o conflito se resolva e a paz se instaure. É uma visão otimista, positiva em relação às diferenças, mas ao mesmo tempo muito fraca como ferramenta narrativa. Insurgente se conclui como um blockbuster da era Glee, que não se limita a mostrar as minorias ascendendo a posições de poder, mas insiste em verbalizá-lo com mensagens explícitas de cunho moral. Para o bem ou para o mal, o discurso consegue atingir seu interlocutor.
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